terça-feira, 18 de outubro de 2011

Papo de menina


– Então deixa eu entender.
– Humm?
– Você está, oficialmente, dando uma chance pro tímido.
– Exatamente.
– Por quê?
– Porque eu me sinto no controle.
– Explica, quero entender.
– Quando a gente flerta, tudo que eu preciso fazer é mandar os sinais corporais certos e esperar ele reagir segundo a minha vontade.
– Meu Deus, você é uma manipuladora!
– Hahaha. Sou nada! Eu só me sinto segura desse jeito, é simples assim.
– Hummmmmmmmm… Segura? Será?
– Explica você, agora.
– Como chama aquele outro menino? Edu?
– Isso.
– O Edu. Por que você gostava dele mesmo?
– Ah… Ele é diferente.
– Como?
– Eu não faço esforço consciente. Ele fala comigo e o ar fica pesado na hora.
– Pesado?
– Tá. Pesado não. Sei lá. A gente se conheceu pela internet e já rolava aqueles comentários com entrelinhas perigosas. Depois a gente se conheceu pessoalmente por causa de um amigo em comum.
– E o que você sentiu?
– Eu perdi o ar. Olhar pra ele é bom… Conversar com ele também é…. Mas o jeito que ele me olha enquanto conversa comigo é… Uou, não dá nem pra explicar!
– Hummmm…
– O nível de tesão é 8,5. Tem picos de 9,9 facilmente.
– E o tímido… Como chama mesmo?
– Guilherme.
– Qual o nível de tesão?
– 7,5. Raros picos de 8,5. Mas ele é doce, divertido, cavalheiro… O Gui me acalma, o Edu me acelera.
– Com quem você se sente mais à vontade?
– O Edu me deixa à vontade porque não fica me perguntando as coisas ou me consultando toda hora. Ele diz “vamos pra tal lugar” em vez de “pra onde você quer ir?”
– O Gui não faz isso?
– Não. Ele é uma gracinha. Abre a porta do carro e tudo, mas....
– Mas…?

[ silêncio ]

– Pessoas controladoras têm um fraco mortal por pessoas que sabem controlá-las. Continua.
– …mas não sei se eu quero que ele abra a porta do carro.
– Quer o quê?
– Que ele olhe pra mim como se estivesse me mandando abrir as pernas.
– Óbvio que é assim com o Edu. Você gosta dele.
– Gosto nada. É só tesão, eu não me apaixonaria por ele.
– Mas só pensa nele.
– Hummmmmm.
– Você acha que flerta quando é você quem toma as atitudes, mas não é só assim que funciona. Quando você aceita uma provocação, está flertando. Você pode muito bem não responder quando ele diz “oi”… Pode muito bem bloquear o menino no MSN… Mas você dá corda. Ele te instiga, Isa. E cada vez que ele te abraça e você gosta, você está flertando. Quando ele é grosso e você fica bravinha, você está flertando. Você não tem controle do que sente por ele, e gosta do controle que ele tem sobre você…

[ silêncio ]

– Não gosto de ficar indefesa.
– Isso não é ficar indefesa. É ficar vulnerável. E é normal.
– É novo pra mim.

Vrrrrrrrrrr. O celular, que estava sobre a mesa, vibra.
* 2 Novas Mensagens *
Leu a primeira e sorriu de um jeito doce.
Leu a segunda e sorriu com o canto da boca.

– Olha isso. “Passei em frente a Casper, lembrei de você. Mas não preciso de muito pra pensar em você, mesmo… Beijo.”
– Que gracinha. E a outra, do Edu?
– Sou tão previsível assim?
– Eles é que são.
– Festa de aniversário dele amanhã. A mensagem: “Não esquece do meu presente: você num vestido vermelho e cabelo preso.”
– Qual você vai responder?
– Hummmmmm…

Ela colocou o celular de volta na mesa e não respondeu nenhuma. Era uma mulher decidida, era ridículo escolher entre dois caras. Não era? Laura voltou pra casa dela e Isabela ficou uns 20 minutos pensando que o Gui merecia uma chance. Falou pra si mesma que não deixaria um cachorro controlador entrar em sua mente. Isso mesmo! Não ia permitir que um cara — por mais intrigante, sedutor e narigudo que fosse — deixasse-a vulnerável. Era ela quem mandava. Era ela quem dava as cartas. Era ela quem deixava os caras subindo pelas paredes, não o contrário. Encheu a taça com vinho tinto e bebeu de uma vez só, enquanto ouvia Piazzolla.

Pegou o celular. Leu novamente cada uma das 93 mensagens nas caixas de entrada e saída.
“Você é racional, garota. Você é racional, garota. Você é racional, garota…” Quase um mantra pra si mesma. Ela não teria tempo de transformar aquela mentira, por mais vezes que fosse repetida, em verdade… Pegou o celular e digitou.

“Preciso de ajuda!”

A resposta veio quase instantaneamente.

“Ajuda? Por quê?”
“Tô em casa, sozinha, e preciso de ajuda. Em quanto tempo vc chega aqui?”

Nenhuma resposta. Exatamente como ela esperava. O interfone do prédio tocou depois de 20 minutos. Tempo suficiente pra colocar o tal do vestido vermelho, meia 7/8 preta, prender o cabelo e uma maquiagem que deixava seu olho mais claro.

DING DONNNNG.
Respirou fundo antes de abrir a porta. Ela mal respirava.

– Que bom que você veio.
– Você parecia desesperada.

Ele entrou, hipnotizado.

– É que eu precisava testar a maquiagem pra festa de amanhã.

Ele sentou no sofá.

– Umhummm.

Ela sentou sobre ele, tomando seu rosto com as mãos.

Acontece que o zíper — um beijo na testa dele — do meu vestido — outro na ponta do nariz — travou. Não dá pra abrir. Beijou o pescoço dele de leve, enquanto respirava em seu ouvido. Você pode, por favor, — fez a carinha mais inocente que sabia fazer — me ajudar a abrir?

Ele rolou com ela até trocarem de posição. Ela embaixo, ele em cima. Isabela ficou assustada com a reação, esperava que ele fosse mais delicado. O nível de tesão com ele chegou a 10! Claro, como um bom cavalheiro, ajudou-a. Primeiro, com o ziper do vestido… Depois com as meias 7/8… Ajudou com o tapete da sala, limpo demais… Com a roupa de cama, arrumadinha demais… Tentou ajudar com o apetite dela, mas este era insaciável demais! Depois de umas 2 horas de ajuda mútua, ele teve que ir embora.

– Amanhã a gente se vê na festa.
– Sim, senhor.

O último beijo na porta, entre sorrisos bobos.

– E obrigada pela ajuda!!

Ele sorriu.

– Eu jamais deixaria uma dama em apuros.

Outro beijo com gosto de quero mais.

– Boa noite, Isa.
– Boa Noite, Gui.

Ela definitivamente não se arrependera de se entregar aos desejos do seu “eu” manipulador, controlador e auto-protetor. E definitivamente se surpreendeu com o menino tímido.

Edu pegou o celular e viu que tinha uma mensagem não-lida. Quem mais mandaria mensagens às 2:15 am? Só podia ser…

“Te vejo daqui 20 horas. Meu vestido está delicioso. Isa”


domingo, 9 de outubro de 2011

Ela (ou eu?)


Ela poderia abraçar o mundo, se quisesse.
Ela fala as maiores besteiras bem fundamentadas do mundo.
Engraçada. Simpática. Tímida. Sorridente. Insegura.
Ela é do tipo que sabe e finge não saber. Ou que não sabe que sabe.
Ela gosta da simplicidade, mas não é.
Ela sabe ouvir. Ela sabe entender. Ela sabe tentar.
Ela sabe escrever. Ela sabe pensar. Ela sabe de muito.
Ela sabe de tudo, menos que ela sabe.
Ela é uma das coisas mais malucas.
Ela ama as estrelas. Ela ama a lua. Ela ama o céu.
Curiosa. Nunca cansa de aprender.
Cheia de complexos, curáveis. Cheia de medo e insegurança, infundados.
Cheia de medos.
Não gosta de silêncio. Sabe que gestos falam mais que palavras.
Ela gosta de rir, acha que a vida não vale a pena se não for divertida.
Ela pode ser a melhor pessoa do mundo, mas se disfarça de pior.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Para quando a insônia chegar

Tava relendo os posts deste blog e acabei chegando até o primeiro texto que escrevi. Não, de fato, o primeiro texto da minha vida, mas o primeiro que postei aqui. Fiquei pensando, tentando lembrar do que se passava na minha cabeça quando resolvi criar esse espaço.

Lembrei de algumas noites sem dormir, nas quais eu simplesmente deitava a cabeça no travesseiro e o sono não vinha. Ou às vezes o sono tava ali, e eu só não conseguia parar de pensar. Uma dessas noites quando a gente sempre quer alguém só pra conversar, só pra deixar sair um monte de abobrinhas e conseguir dormir tranquilo. Eu pensava, pensava, rolava na cama, pensava, olhava o celular, pensava, suspirava, mudava de posição.... e nada! Até quando chega aquele momento que você perde a paciência e, por falta de opção, vai escrever.

Sei que tenho um anseio muito grande de soltar pra fora tudo que há guardado em mim e, por mais que eu converse muito (e olha que converso mesmo!), nem sempre consigo falar o que realmente tenho vontade. Então, que fique clara a humilde existência desse blog: é pra quando a insônia chegar, e eu tenha algo a fazer além de me entupir de remédios.

(Mesmo que essa 'insônia' decida chegar às 08h23 da manhã).

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Sobre percursos e sonhos

Quando eu era criança, sonhava em ter 18 anos. Parece bobo dizer isso agora, mas acho que muita gente compartilhava comigo esse mesmo sonho. Não sei exatamente por quê, mas achava que aos 18, completando a tão esmerada maioridade, as coisas que eu desejava iam se realizar mais facilmente. Tudo parecia ser possível pra mim.

Não foi.

Cresci, soprei 18 velhinhas e acordei no dia seguinte com uma sensação estranha de que nada havia mudado. A gente tende a acreditar, sabe-se lá o motivo, que depois de realizarmos alguns sonhos, ou chegarmos aonde queríamos, que as coisas vão mudar sozinhas, que tudo vai andar no seu próprio caminho sem esforços ou dificudades. Ledo engano.

É nessa hora que nos enxergamos mais apavorados e sem rumo, como se não tívessemos nos programado para o depois. O importante era chegar lá, mas agora que estou aqui, o que fazer? Nunca se sabe. É uma grande inocência acreditar que grandes mudanças serão pra sempre grandes mudanças. Depois que acontecem, bate aquele vazio. E agora? O que eu quero? O que vou fazer com isso?

Dizem que quanto mais você se realiza, mas insaciado você se torna. E eu não acreditava nisso, até perceber que todas as minhas realizações, que antes pareciam tão promissoras e cheias de potencial, na verdade não fizeram grande diferença na minha vida. O que fez diferença, na real, foi tudo o que aprendi durante o percurso todo. Aquelas pequenas grandes coisas que você aprende, que te fazem ser quem você é e te fazem acreditar no que você acredita, mas que não paramos para notar. O que importava era chegar lá.

Estamos muito preocupados em realizar, conseguir, fazer e acontecer.

Uma dica sincera de quem vos escreve: não se preocupem com isso! O que você consegue é só um resultado de tudo o que você mesmo fez. Dê valor aos percursos, às dificuldades, ao aprendizado disfarçado de impossibilidades. É aí que moram as verdadeiras mudanças.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sábado, 3am

(clean version)

Era sábado de madrugada. Ela sentia alguma coisa estranha. Sabia que algo se passava mas não queria pensar muito, não queria descobrir o que era.
Levantou, foi até a cozinha beber água. Não tinha sede, mas beber água era uma desculpa pra sair da cama e decidir o que fazer a seguir. A idéia era ocupar os neurônios com algo fútil, não pensar.
Foi até a varanda. Estava frio, mas isso não a impediu de acender um cigarro. O frio, que era tanto, não foi capaz de congelar os pensamentos. Era apenas frio, o que a obrigou a terminar aquele cigarro o mais rápido possível.
Voltou ao clima agradável da casa, sentou em frente ao computador e quis escrever. Ainda estava gelada. Sete minutos na varanda tinham sido suficientes para lhe gelar a pele, a carne, os nervos, o sangue, os ossos, mas não a droga do pensamento. Ainda sentia muito frio. Era culpa da falta de roupa, pensou, afinal estava apenas de meias, calcinha e blusa. Queria que tudo fosse quente, tudo a não ser os pensamentos que a mantinham acordada. Esses sim poderiam congelar, mas esses, nela, nunca congelavam. Estavam, quase sempre, em ebulição.
Olhou para a tela do computador. O que iria fazer? Iria fazer alguma coisa? Talvez voltar pra cama. Queria escrever, precisava escrever, deixar sair palavras, palavras atrás de palavras, mesmo que sem nexo algum.
Estava com frio, ainda com muito frio, mas resolveu tirar as meias. Colocou os pés descalços no chão gelado. Queria que o frio dos azulejos fosse tanto a ponto de se convencer que era melhor voltar ao edredon quentinho e dormir. O imenso frio da varanda não foi suficiente, e, como era de se esperar, o frio do chão também não. Tirou a camiseta.
Precisava escrever mas não sabia o quê. Tinha tantas, tantas coisas para escrever, mas não conseguia escrever nada. E não era por causa da falta de sono, não era pelo frio que sentia, não era pelo chão gelado nos pés, não era pelo corpo despido.
Desligou o computador e resolveu voltar para o quarto.
Sábado de madrugada. Gente nos bares, nas boates, nas ruas. Risos, álcool, danças, sexo. E ela ali, sentindo o cheiro do próprio travesseiro, desejando que aquele cheiro fosse outro. Um cheiro que ela não sabia descrever e nem sequer sabia se existia.
Era ridículo. Mas ela não se sentia ridícula. Não conseguira escrever nada, mas se sentiu bem somente pelo fato de estar aquecida. Os pensamentos em ebulição, evaporando...
Não sorriu, não chorou, apenas se abraçou mais um pouco, apertou o travesseiro cheiroso, agora sem frio.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Você é feliz?

- Quando?
- Quando? Quando o quê? Te fiz uma pergunta simples. Você é feliz?
- Esse é o seu tipo de pergunta simples?
- É.
- Ok, talvez seja simples mesmo. A resposta é que pode variar. Depende de como se olha para ela.
- Você é?
- Quando?
- Quando o quê? É ou não é?
- Não sei responder. Você pergunta se sou feliz e eu te pergunto quando.
- Me explica...quando o que?
- Quando me sinto feliz, sou feliz. Quando me sinto infeliz, sou infeliz. Mas por que você tá me perguntando isso?
- Ontem, quando cheguei em casa, percebi que você estava chorando. Tentou disfarçar mas estava, ou esteve, chorando...
- Ontem eu não era feliz, achei que devia chorar.
- E hoje?
- Sim, hoje sou. Estou bem. Só porque ontem chorei significa que sou infeliz?
- Então...
- Então nada. Você me vê chorando sempre?
- Não, você me parece quase sempre bem. Sorrindo, falando pelos cotovelos, cantando... até eu já não aguentar mais tanta cantoria. (risos)
- Então por que a indagação sobre minha felicidade?
- Porque quero a confirmação de que você está feliz.
- Tal como estou agora e estou quase sempre? As pessoas só pensam na felicidade alheia quando se deparam com a tristeza. E quando eu estou bem? Você se lembra de perguntar?
- Não, porque presumo que você está feliz quando está sorrindo.
- Pois você deveria saber que o pior tipo de tristeza é aquele que não vem acompanhado de lágrimas, mas de sorrisos.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A m o r . . .



"Eu sempre achei que o amor, que o grande amor, fosse incondicional. Que quando houvesse um grande encontro entre duas pessoas, tudo pudesse acontecer. Porque se aquele fosse o grande amor, ele sempre voltaria triunfal... Mas nem todo amor é incondicional. Acreditar na eternidade do amor é precipitar o seu fim. Porque você acha que esse amor aguenta tudo, então de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo... Um grande amor não é possível. E talvez por isso é que seja grande – para que nele caiba o impossível.

Eu sempre achei que o amor, que o grande amor, fosse incondicional. Que quando duas pessoas se encontram, quando este Encontro acontece, pode trair, brochar, azar, todas as porradas... Sendo o grande amor, ele voltará triunfal, sempre. Mas não, nenhum amor é incondicional. Então, acreditar na incondicionalidade é decididamente precipitar o fim do amor. Porque você acha que esse amor aguenta tudo, então de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo... E um amor não aguenta tudo. Nada nessa vida é assim. Daí você fala que esse amor não tem fim, para que o fim, então, comece. Um grande amor não é possível – e talvez por isso é que seja grande. Assim, nele obrigatoriamente cabe, tem de caber, também o impossível. Mas quem acredita? Quem acredita no impossível, se não apaixonadamente? Como a um Deus, incondicionalmente?"


(Afinal, o que querem as mulheres? - André Newmann)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Morte



O ponto final sempre chega. A morte é infalível. As pessoas morrem. Ponto. Parágrafo.

Não que a gente se lembre disso sempre. Eu acho na verdade que fazemos questão de esquecer. Quando morre uma Dercy Gonçalves da vida, símbolo de longevidade, me pego matutando ali por uns cinco minutos (com direito a toda aquela sensação de garganta entalada e frio na espinha característicos do excesso de consciência), imagino como será quando eu morrer e como as pessoas que convivem comigo irão levar a vida sem mim. Eis que cai a minha ficha... tudo há de correr perfeitamente sem a minha presença, a normalidade deve se restabelecer alguns dias depois do primeiro verme beliscar minha carne podre. Mas, felizmente, esses devaneios tolos passam depressa. Santo computador, internet, facebook, música... ah, maravilha, salva da lucidez por mais algum tempo. Mas ela volta.

Às vezes é confortável pensar na morte como a visita de uma caveira mal-encarada, portando uma foice, sedenta por almas, talvez com alguma compaixão, além de certa repulsa pelo trabalho monótono, eterno. Pensemos bem, sua situação não é muito melhor que a nossa. Apesar de ser imbatível e eterna, a morte é para sempre morte.

Se nossa vida na Terra existe para forjar algum sentido, alguma filosofia, algumas igrejas, a pobre coitada da morte tem a certeza de caminhar rumo algum para a existência. E sabe desde sempre. Não deve ser fácil não fazer nenhum sentido eternamente.

O ser humano é um fanfarrão, e é um ingênuo. Convencido de sua própria grandeza, acredita ser a obra-prima da Criação. Foge covardemente da sua angústia, driblando sua condição miserável e impotente, vivendo como o protagonista de um espetáculo particular sem roteiro muito definido. No fundo somos todos imortais, pelo menos enquanto não paramos de respirar.

Ou até que nos visite a caveira entediada, batendo ponto no serviço.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O surto

Sabe que eu cansei? Cansei de não-reclamar.

Hoje eu tava pensando naquela louca da Colheita Feliz eu-sou-portadora-de-esquizofrenia, na doida me-dá-meu-chip-Pedro, no povo desses reality shows que choram e gritam por uma vírgula, enfim, em todas essas pessoas que surtaram em momentos banais, embora eu acredite que o escândalo todo nunca seja por algo banal.
Acredito que seja só a gota d'agua, aquele momento de dizer "não importa que é o culpado, eu quero que todo mundo vá a merda".

O problema é que a maioria das pessoas não sabe que antes de surtar, aquela pessoa aguentou um monte. Não interessa o quê. Foi chifrado, perdeu uma promoção no trabalho só porque o chefe escolheu um amigo, bateu o carro, a casa inundou, está longe das pessoas que ama, o cara que gosta vai se casar, a mãe morreu, WHATEVER!

O momento do surto pode ser qualquer um. Você andando na rua, puto da vida por algum problema, e uma pessoa te esbarra. Pronto, no segundo depois você está no chão aos tapas com uma pessoa qualquer que não tem nada a ver com a sua vida. Você entra em uma lanchonete, o lanche veio errado? Pega o hamburger, esfrega na cara do atendente e diz "EU QUERO O MEU DINHEIRO" e pronto.

Alívio.

Você, que aguentou aquele monte de merda, mas um sanduíche errado você não pode aguentar. A briga não é nem pelo sanduíche em si, que se dane o dinheiro perdido. Simplesmente era a hora de dizer chega. Quando você se entope de raiva e energia e seu único objetivo é fuder todo mundo. Quando você é oficialmente tido como louco. A escória da sociedade.

Tô quase lá.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Juliana

O que eu acho de mais interessante sobre a vida é como os caminhos são traçados. Nossas escolhas, nossas prioridades, nossas futilidades, nossos anseios... tudo se encaixa tão perfeitamente, mesmo que às vezes não pareça se encaixar, que cada vez mais me conveço de que nada é por acaso.

As pessoas que você conhece, as conversas, uma bebida que você escolhe tomar ou não. Um olhar que você recebe que te faz tremer. Um gesto que aparentemente não significa nada, mas que faz o seu dia melhor. Um filme que você assiste e que simplesmente muda tudo o que você pensa sobre relacionamentos e sobre o que você pensava que sabia sobre eles!

Sei que posso ser uma eterna romântica-cheia-de-clichês e brigar comigo todos os dias por ser assim, mas hoje não! Hoje eu simplesmente quero aplaudir de pé todas estas pessoas que se entregam, que esperam sempre mais e que, no fim, ainda se surpreendem. São estas pessoas que me inspiram a ser quem eu sou e como eu sou.

Me magoar? Sim, é inevitável...
Mas quem disse que os que não se magoam são mais felizes?

Eu sou feliz porque dou minha cara a tapa.
Porque não tenho vergonha de dizer, de pensar, de agir...
Porque sou eu mesma, com minhas manias, minhas chatices, minhas expectativas, meus medos, meus defeitos... sou feliz porque posso ser várias Juliana's sem me arrepender de ter sido todas elas, ou nenhuma delas.

Quem não gostar... well, que aperte logo o ctrl+w.